

Oi amigo que sempre lhe escrevo, quero lhe falar de cartas, do vento, das folhas, da vida.
Há algum tempo optei por escrever cartas aqui no recanto, é um modo de escrever diretamente a pessoas que lêem e a mim que releio o que escrevo.
Sempre que viajo deixo meus pensamentos divagarem a um lugar que nem eu mesmo sei aonde vai, mas eu penso que estou escrevendo com a pena da alma.
Há um tempo perdi minha sogra para o caminho de sua própria mente, pensei até que ela estaria com Mal de Alzheimer, porque ela não falava nada com nada, vejo que me enganei, ela tem uma demência vascular, mas não é M.A, só que ela está perdida em sua memória, não lembra mais do presente e se for perceber nem do passado, sabe até reconhecer as pessoas, mas de um modo peculiar, só dela.
Eu sinto a falta dela como sogra.
Se eu fosse escrever minha carta para ela eu perguntaria, onde a senhora se encontra hoje?
Sei que a senhora está melhor até de saúde porque parou de ter preocupação, está mais bonita, porque seu semblante está mais calmo, não briga, nem arranheta mais com ninguém, come melhor. Mas onde está a senhora hoje?
Cartas para mim foi uma maneira de dizer aos outro o que eu penso, hoje eu estava divagando que tem pessoas que coleciona bolsas, sapatos, tampinhas, selos. Em outros tempos na época que não tinha internet as pessoas mandavam cartas pelo correio com selos e tudo, eu também era assim. Lembro uma vez que eu correspondia com uma professora pelo simples prazer de escrever cartas.
Até algum tempo atrás eu tinha cartas guardadas, com envelope colorido, com pétalas, com sentimentos. Uma carta contém tudo isso. Contêm sentimentos, prazer, dor, alegria, lágrimas, final de namoro, começo, saudades, aviso de chegada e de partida. Envelopes amarelados com o tempo, cheiro perdido, mas quem tem a carta em mãos sabe que aquela carta continha tal perfume.
Agora com a chegada da internet as cartas são mais rápidas com menos sentimentos, são recados deixados em MSN, deixados sem caligrafia, sem perfume, sem pétalas, nem folhas amareladas.
Falo das cartas, de minha sogra, do passado, das folhas amareladas, do vento.
Hoje fui ao cemitério, que sensação de abandono, o vento batia no chão levando as folhas levantarem. Sabe aquela sensação que você esta num lugar abandonado quando você assiste filme antigo? Foi assim que eu me senti.
Sabe amigo, minhas cartas estão cada vez mais estranhas, mais voltadas ao sentimento de perda.
Acabei ficando triste.
Deve ser o tempo que está frio e nublado. Você sabe como este tempo me deixa triste e sozinha.
Enquanto voltava para casa eu pensava em escrever para você e lhe dizer que meu sonho era ter um baú cheio de cartas guardadas para reler sempre que tivesse triste.
Cartas são lembranças de amigos que se teve, é lembrança do passado.
Myrian Benatti